Condicionamento ideal de ar em ambientes fechados pode reduzir riscos de contágio por coronavírus



SISTEMAS DE CONDICIONAMENTO APRESENTAM MECANISMOS DE FILTRAGEM E RENOVAÇÃO DE AR QUE PODEM DIMINUIR O TEMPO DE SUSPENSÃO DE PARTÍCULAS CONTAGIOSAS NO AR


Matéria publicada dia 09/02/2021 no BLOG AUN (agência universitária de notícias da USP) - Autora Gabriela Caputo em Ciência, Tecnologia e Saúde.


Após cerca de onze meses de pandemia no Brasil, muitos locais seguem com fluxo de pessoas restringido, enquanto outros já experienciam reabertura há certo tempo. Diante o cenário, surgem inúmeros receios quanto à circulação e ao condicionamento de ar em ambientes fechados. Antonio Luís de Campos Mariani, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP que atua com ênfase nas temáticas de ar condicionado e ventilação, explica sobre o funcionamento desses sistemas e os riscos envolvidos.


Segundo Antonio, “o ar condicionado deve estabelecer no ambiente interno condições que proporcionem saúde e conforto para os ocupantes”. Pensando em uma circulação de ar de qualidade ideal, ou seja, um sistema de condicionamento de ar com projeto e instalação corretos, o professor explica que os principais parâmetros a serem controlados são: temperatura, mantida entre 23ºC e 25ºC; umidade relativa, entre 35% e 65%; velocidade e direção do ar, que deve ser baixa na zona onde estão as pessoas — a chamada zona de ocupação —; e pureza do ar, por meio de processos de filtragem e renovação de ar interno com adição do externo, para remover ou diluir os poluentes.


Quanto ao risco de transmissão de doenças em ambientes internos, Antonio explica que ele é menor quanto mais eficiente for o sistema de ar condicionado. “Esta eficiência deve proporcionar tratamento do ar interior principalmente com uma ventilação adequada associada à renovação do ar. Contudo, deve-se estar atento ao grande número dos sistemas unitários utilizados, muitas vezes identificados como “split systems”, que são instalados nos ambientes sem ter associado uma renovação de ar adequada, com baixa capacidade de filtragem.”


O pesquisador ressalta que os microrganismos têm tamanhos reduzidos e que os vírus são os menores entre eles — a família dos coronavírus possui dimensões de 60 a 220 nanômetros. “Nós consideramos a hipótese de que os microrganismos usualmente deslocam-se associados a partículas maiores que eles. Eles estão conectados a uma partícula de matéria sólida (poeira), ou de matéria líquida (gotícula de vapor d’água)”, afirma.


O sistema de condicionamento de ar retém as partículas sólidas nos filtros, enquanto os trocadores de calor (evaporadores) atuam de maneira semelhante com as partículas líquidas, explica o professor. Há também diluição da concentração de partículas no ambiente quando ar externo e limpo é inserido no ambiente, podendo retirar as partículas que carregam os microrganismos. “Estes são os mecanismos que hoje os sistemas de condicionamento de ar possuem, e com eles podem colaborar para reduzir o risco de contaminação”, diz.


Segundo Antonio, a circulação ideal do ar interior pode reduzir esse risco ao diminuir o tempo de permanência das partículas em suspensão, que é maior no ar parado. Sobre a adequação de sistemas que não se encontram em situações ideais, o professor diz que diversas soluções podem ser avaliadas, como “a adição de insuflação de ar externo duplamente filtrado para melhorar o resultado no ambiente”.


Ainda sobre os riscos, Antonio sintetiza: “Para sistemas de ar condicionado adequadamente projetados e instalados, com renovação de ar operando, se há menor número de pessoas no ambiente, haverá maior vazão de ar de renovação por pessoa, e assim há menor risco. Porém se não há renovação nenhuma, o risco é grande mesmo com baixa densidade de ocupação.”


Analisando a situação da retomada de atividades em ambientes coletivos como instituições de ensino, Antonio elenca algumas recomendações para diminuir o risco de contágio, para além do uso de máscaras: melhor ventilação com renovação do ar interno possível e manter os filtros nos equipamentos com boa capacidade de filtragem. “Se não é possível inserir ar de renovação filtrado, ventilar o ambiente com o ar externo que for de melhor qualidade possível. Se necessário, abrir janelas e utilizar ventiladores auxiliares.”


Ainda segundo ele, a circulação não deve direcionar o ar para as pessoas e provocar movimentos de ar com velocidade na região de uma pessoa para outra, o que traria o efeito contrário e indesejado. “O ar deve ser direcionado sempre para fora da zona ocupada pelas pessoas, para cima, para fora do ambiente.”


Sobre a reabertura de ambientes coletivos como shoppings, teatros e cinemas, Antonio analisa que “o distanciamento pode ser ineficaz se não ocorrer ventilação e renovação de ar adequadas”. Além disso, ele ressalta que “é preciso tomar muito cuidado com afirmações de que desligar os sistemas de ar condicionado e ventilação são soluções que reduzem o risco de contaminação”. Isso poderia ampliar o risco. “Os sistemas de ventilação e ar condicionado projetados, instalados e utilizados corretamente, e com boa manutenção, são grandes aliados neste momento da pandemia”, completa o professor.


Fonte: AUN (Agência Universitária de Notícias da USP)




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